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As primeiras a serem chamadas

Martha Medeiros

Todas as pessoas do mundo, creio eu, se pudessem escolher a quem dar a mão na hora de partir, chamariam por suas mães

Casualidade ou não, ouvi algumas histórias com teor semelhante nas últimas semanas. Histórias de mulheres já bem idosas, doentes, com pouco tempo de vida, que mesmo tendo diversos filhos e netos em volta, de vez em quando saíam do ar, desconectavam-se da realidade e chamavam por suas mães. Exigiam a presença delas. Até as enxergarem. Deliravam por suas mães, que haviam morrido tanto tempo antes. Fico até meio arrepiada ao escrever isso.

Todas as pessoas do mundo, acredito eu, se pudessem escolher a quem dar a mão na hora de partir, chamariam por suas mães. Isto não é desprezo por todos os afetos conquistados durante a vida. É, isso sim, uma sensação de orfandade que desespera a todos. Voltamos a ser criança diante do desconhecido e, nesta hora, deixamos de ser a âncora da família para recorrer àquela que foi nossa própria âncora.

Um ou outro leitor há de discordar, baseado em experiências maternas não tão dignificantes, mas nem é o caso de analisar se a mãe foi boa ou foi distante, se foi rígida ou desinteressada, se nos acolheu ou se teve que sumir no mundo, na verdade não importa o tipo de mãe que ela foi, basta que saibamos que viemos dela, que fomos gerados por ela, por ela criados, mal ou bem, e sendo assim ela instantaneamente vira nossa casa, planeta, árvore, raiz, referência, um corpo que não queremos perder de vista.

Que trágica estou me saindo nesta coluna de hoje, que era pra ser apenas uma homenagem. É que fiquei impactada pelos casos que escutei sobre mães que chamavam por suas próprias mães com uma voz frágil, como se incorporassem as filhinhas que um dia foram, como se tivessem para sempre 10 anos de idade. Na minha fantasia, acredito que nunca ultrapassamos os 10 anos: a gente apenas precisa, a partir daí, interpretar o adulto que planejamos ser. Mas, no final da vida, deve bater um cansaço de tanta interpretação e uma necessidade de voltar a infância, onde estávamos tão protegidos de tudo.

Finalzinho de crônica e ela segue densa, talvez pouco adequada para o almoço deste domingo, para as flores e os presentes que serão distribuídos, para os abraços, beijos, para a doçura que se espera de um dia comemorativo. Acontece às vezes de eu escrever como se estivesse compondo uma ópera, mas queria apenas chamar a atenção para esse fenômeno: eu sou mãe, eu tenho mãe, somos milhões de mulheres exercendo a maternidade e desempenhando nossa função da maneira mais adulta e nobre possível, mas antes de qualquer outro papel, acredito que seremos para sempre filhas assustadas, filhas indefesas, filhas emotivas, meninas que não hesitarão em chamar pela mãe quando se sentirem absolutamente sós.


Domingo, 8 de maio de 2005.



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